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Crítica: Agora (Ágora)

Qui, Jul 19, 2012

Cinema, Críticas

Sinopse: Século IV. No Egipto, sob o poder do Império Romano, violentos confrontos sociais e religiosos invadem as ruas de Alexandria… Presa entre paredes, sem poder sair da lendária livraria da cidade, a brilhante astrónoma, Hypatia, com a ajuda dos seus discípulos, faz tudo para salvar os documentos da sabedoria do Antigo Mundo… Entre os discípulos, encontram-se dois homens que disputam o seu coração: o inteligente e privilegiado Orestes e o jovem Davus, escravo de Hypatia, dividido entre o amor secreto que nutre por ela e a liberdade que poderá ter ao juntar-se à imparável vaga de Cristãos.

Crítica: Segundo a definição disponibilizada pela Wikipédia Ágora “era a praça principal na constituição da pólis, a cidade grega da Antiguidade clássica. Normalmente era um espaço livre de edificações, configurada pela presença de mercados e feiras livres em seus limites, assim como por edifícios de carácter público. Enquanto elemento de constituição do espaço urbano, a ágora manifesta-se como a expressão máxima da esfera pública na urbanística grega, sendo o espaço público por excelência. É nela que o cidadão grego convive com o outro, onde ocorrem as discussões políticas e os tribunais populares: é, portanto, o espaço da cidadania.”

Ora, é em volta desta ideia de espaço público de convívio e discussão de ideias – ao fim ao cabo em torno da ideia de civilização – que Alejandro Amenabar, realizador chileno, radicado em Espanha, construiu o argumento e realizou a sua última longa-metragem.

Amenabar, já laureado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, pelo incontornável Mar Adentro, tem-se revelado um realizador quadrienal, capaz dos mais diversos estilos narrativos e tipos cinematográficos, se atentarmos na diversidade da sua obra, de onde destacamos o já mencionado Mar Adentro, com Javier Bardem, bem como Os Outros, protagonizado pela talentosa Nicole Kidman e Abre los Ojos, filme original que viria a ter um remake pelas mãos de Cameron Crowe, intitulado Vanilla Sky.

Com Ágora o desafio de Amenabar apresenta-se particularmente exigente, na medida em que nos é proposta uma viagem no tempo e espaço até Alexandria, no Egipto romano, em 391 DC. Nesse tempo e local deparamo-nos com o confronto civilizacional entre a recém elevada religião do império – o Cristianismo – face à milenar religião pagã egípcia e ao tradicional judaísmo.

Contudo, Amenabar oferece-nos um ângulo do confronto bastante original, baseado em factos verídicos, porquanto diversamente da visão clássica a que o cinema nos habituou, em películas como Quo Vadis, entre tantos outros, desta feita, os cristãos não são os perseguidos, mas os perseguidores, que tentam aniquilar as demais religiões, destruindo, por todos os meios, quem se lhes oponha, impondo a sua fé, ora erigida em religião oficial do Império Romano.

Neste pano de fundo, surge Hypatia, filósofa, astrónoma e ateia, que se dedica a ensinar os jovens, no centro por excelência da sabedoria do mundo antigo, a Biblioteca de Alexandria, dirigida pelo seu pai. Hypatia é uma mulher refém das fragilidades da sua feminilidade, que a diminuem socialmente num mundo de homens em convulsão, mas que a tornam simultaneamente numa espécie de farol de sabedoria, assenta no raciocínio científico, isenta e imparcial, que vai orientando os homens que com ela contactam e se deixam fascinar pela sua inteligência e bom-senso.
Entre esses homens encontram-se Davus, seu escravo, que desde o primeiro momento por esta se apaixona, e Orestes, filho de um alto dignatário do império romano, que disputarão a atenção de Hypatia, ligando indelevelmente o seu destino individual ao dela.

Com efeito, o argumento, da autoria do próprio realizador, com Mateo Gil, é uma das mais valias do filme, na medida em que não só é historicamente exacto, como os diálogos são de uma qualidade assinalável, retratando na perfeição os pontos de vista dogmáticos das personagens, com uma clareza digna de nota.
Hypatia demonstra nas suas falas, não só a sua sensibilidade, mas uma argúcia que desarma os seus opoentes, sendo de destacar, de igual modo, os discursos dos parabolani, soldados cristãos, por oposição aos discursos dos lideres judeus e egípcios, que são aptos a mostrar a discórdia entre os fieis de cada uma das religiões.

Por outro lado, o argumento encontra nos actores escolhidos os protagonistas perfeitos para tornar verosímil esta história perdida no tempo. Rachel Weisz, cujo talento e versatilidade são inegáveis, veste o papel de Hypatia, com uma naturalidade assombrosa, que torna todos os seus gestos, olhares e falas, momentos únicos de um protagonismo mais do que merecido. O tom brando da personagem encontra sempre as excepções adequadas, quer nos momentos de desespero pessoal, quer quando se exalta com uma descoberta cientifica por si perseguida. Hypatia revela-se um ser movido a inteligência, sem deixar de lado uma humanidade nos valores acima de qualquer religião que se possa professar. Rachel Weisz merece todos os aplausos.

Por outro lado, Max Minghella e Oscar Isaac vestem condignamente as personagens, respectivamente, de Davus e Orestes, transformando-se ao longo do filme, de forma credível e dramaticamente sustentada, dando-nos bons momentos de interpretação.

Do ponto de vista técnico o filme é perfeito.
Assinalo a notável direcção de arte e guarda-roupa que são de uma minúcia fiel espantosa à realidade histórica. Por outro lado, destaco a banda sonora que pontua passo-a-passo a narrativa, sem ser demasiado intrusiva, mas marcando correctamente a acção.
No que concerne à parte técnica da realização, Amenabar demonstra todo o seu talento, sem ser exibicionista. Muitos são os planos dignos de nota, em particular os aéreos, de onde se destaca a destruição da biblioteca de Alexandria, bem como a invasão da mesma pelos cristãos.

Em jeito de conclusão, Agora, o filme, é como a ágora dos gregos, uma soberba obra de arquitectura cinematográfica, que convida à reflexão sobre a tolerância entre os povos, as suas religiões, o papel da mulher no mundo e a capacidade de a inteligência dominar o medo e a intolerância. Definitivamente, a ver!

Título Original: Agora
Realização: Alejandro Amenábar
Argumento: Alejandro Amenábar, Mateo Gil
Elenco: Rachel Weisz, Max Minghella e Oscar Isaac
Género: Drama, Acção
Trailer: Aqui!
Avaliação: 7,5/10

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